terça-feira, 29 de abril de 2014

Mais uma vez o suicídio

Ontem foi a vez de um jovem actor (Pedro Cunha) ter posto termo à vida; nada que pelos vistos já não tivesse ameaçado fazer, há um ano atrás quando foi resgatado do rio Sorraia creio eu.

De uma coisa tenho a certeza; uma pessoa que meta na cabeça que se quer mesmo suicidar, mais cedo ou mais tarde, fá-lo. E por norma não fala no assunto, não ameaça...e se não tiver sucesso à primeira, as tentativas sucedem-se até atingir o "sucesso" da intenção.

Não conheço muito o trabalho dele, passei por uma ou outra cena por ele interpretada numa novela há uns tempos atrás em que ele falava com sotaque de leste e achei que o rapaz até tinha jeito para a coisa.

Agora sucedem-se os elogios, os amigalhaços, o choque dos mais próximos, mas pergunto-me, quando ele mais precisou será que lá estiveram!?

Numa pessoa doente, bipolar, com esquizofrenia ou outras patologias semelhantes acredito que pouco haja a fazer; agora numa pessoa que possa passar por momentos depressivos, acho que o meio envolvente por vezes está tão abstraído nos seus tormentos que não olha com olhos de ver para um amigo que precise de apoio.

E depois quando é tarde....era um grande amigo, muito alegre, não estava à espera, etc e tal.

Passei por momentos na minha vida, como toda a gente, menos bons; mas sobretudo o que vivi há 4 anos atrás foi de uma brutalidade, de uma injustiça, de uma falta de moral, e por aí fora sem limites. E tive amigos (poucos) que de madrugada deixaram as suas famílias para me virem auxiliar, tranquilizar, dar apoio e alento e tentar que eu não fizesse algum disparate, que me causasse dano não só a mim, como à bebé que carregava no ventre.

E ainda hoje esses amigos continuam na rectaguarda como guardiões do meu lar e sabem perfeitamente que foram e continuam a ser uma peça fundamental para eu cá estar hoje.

Por vezes é aquele telefonema na altura certa, aquela mensagem, aquele convite para o lanche, para um fim de semana, para um passeio....ou pura e simplesmente o ombro, que fazem toda a diferença.

Lembro-me do crápula do progenitor da minha filha, quando tudo aconteceu, entre posts aos "linguados" à outra no facebook e eu gravidíssima, faltas de respeito e sobretudo de acompanhamento do projecto de família que quis e me implorou para que o concretizasse com ele, me mandar ir para casa das minhas amigas na recta final, porque ele tinha uma "relação" com a amante, que também tinha largado o marido em casa.
E lembro-me do desespero, da dor e de facto de pensar que não valia a pena...que o meu percurso poderia terminar, porque se em vida o crápula que eu amava me tinha ultrajado de tal modo, a morte, não seria pior, de todo.

E foram as presenças de algumas pessoas nos momentos mais dramáticos que me fizeram ver que de facto a linha não tinha terminado ali, tinha um tracejado...mas seguia. E estou-lhes grata, eternamente e ao meu modo compenso-os de tudo aquilo que foram fazendo por nós.

Por isso, quando testemunho casos destes, penso sempre que se poderia ter feito algo, para que um jovem de 33 anos (eu tinha 32) tome uma atitude irreversível e ache que o melhor caminho é desistir.

A amizade deveria ser dos sentimentos mais nobres da Humanidade, acima do amor até, porque um sentimento não se pode separar do outro, e todos nós, que temos amigos devemos tomar cada vez mais atenção sobre o que se passa à sua volta, darmos uns minutos do nosso tempo, do nosso ombro, do nosso carinho, apoio, luta, mãos à obra, porque muitos destes suicídios precoces poderiam ser evitados.

Tenho mesmo muita pena de mais este episódio e de tantos outros que se passam diariamente e não são noticiados, mas que têm também toda a importância do mundo.

Paz às suas almas e muita clareza e presença de espírito nas horas em que nós próprios sentimos que temos o poder de impôr o nosso próprio fim.

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