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28 anos e 4 horas de vida, desde que a vi em vida pela última vez

É um dia histórico para republicanos e monárquicos e cada qual o entende sob o seu ponto de vista. 

Para mim, desde 1998, ou seja, de há 28 anos para cá é um dia que me faz inevitavelmente revisitar um passado que dói. 

Eu tinha 20 anos. Era uma miúda imberbe com algum conteúdo, mas não deixava de ter 20 anos. O Verão anterior tinha sido ambíguo. EXPO 98, fui lá uma série de vezes, levei a minha irmã que na altura tinha uns encantadores 10 anos e diverti-me imenso. Mesmo. 

A vida universitária corria-me bem. Na verdade foram os anos, enquanto estudante em que fui feliz. Com muita aprendizagem útil, conheci pessoas incríveis entre colegas e professores e deixei de ter de lidar com pessoas parvas e comportamentos parvos, numa altura em que ainda não se falava em bullying mas ele já existia e bem! 

A minha avó era doente oncológica há 10 anos, mas na minha cabeça era imortal. Iria ter avó até aos seus 100 anos ou mais. Alguma vez a minha avó partiria mais cedo!? Jamais. 

Não obstante aquele último Verão foi de despedida. Passei muito tempo com ela, em casa, a conversar, dormia a sesta com ela, e foi-me contando muitas coisas da vida. Da vida dela, do porquê de certas escolhas, do que esperava ainda da vida (que já não era grande coisa), dos planos que tinha para as netas, da pena que sentia por, apenas por teimosia minha nunca me ter visto com o traje académico porque eu teimei que só o vestiria no último ano. Era importante para a minha avó ter-me visto trajada mas a estupidez dos meus 20 anos só me fez perceber isso muito mais tarde. 

Despediu-se de muitas coisas, mostrou-me onde tinha documentos importantes guardados para na altura certa guiar a minha mãe, disse como queria ir vestida, como e de que modo deveria ser o seu funeral. 

Eu ouvi sempre com muita atenção, mas cá por dentro achei sempre que era um perfeito disparate estarmos a ter aquele tipo de conversa. 

Uma semana antes de dar entrada no hospital pela última vez, a médica ligou para a minha mãe e pediu para a levar lá porque as últimas análises tinham indicadores relevantes e ela precisava de soro e umas coisitas. A minha avó recusou ir nessa semana dizendo que sabia que a próxima ida ao hospital não teria regresso e necessitava de uma semana mais para se despedir. Despedir-se da casa, das suas coisas, da vida, de nós…

Vivi aquilo como outro disparate, mas ela estava de facto tão lúcida.

Curiosamente estamos em 2026 e os dias da semana batem certo com os de 1998. No dia 01 de Outubro lá foi ela resignada, com a certeza de que jamais voltaria, mas eu continuava a achar que sim. Seria apenas mais um internamento. Se fosse hoje, já não me iludiria. 

Ela estava bem, foi pelo seu pé, e pela primeira vez, 2 dias antes de partir disse-nos que já não tinha medo de morrer, que morrer era bom e tinha aroma a flores. 

Mais uma vez eu achei aquela conversa disparatada. As evidências estavam lá, a morfina estava lá, e ela via e sentia coisas que nós, no mesmo quarto não sentíamos. 

No dia 05 de Outubro fui visitá-la sozinha à hora de almoço, depois juntaram-se-me duas amigas da família mas, quando lá cheguei a minha avó estava noutro lugar. Como era possível na véspera ter momentos de lucidez e em menos de 24 horas vê-la quieta, com o olhar vidrado e preso num ponto do tecto e sem qualquer reacção. 

Corri sozinha por aqueles corredores a chamar por uma enfermeira, a questionar o que se passava com a minha avó….a imberbe de 20 anos ali, naquele momento, não queria acreditar. Não podia ser. A enfermeira disse-me que ela estava apenas a descansar e para eu continuar a falar com ela. Como podia eu falar com ela se ela só mantinha ali um corpo doente e inerte, mas a alma dela estava a desligar-se de tudo.

Foi muito difícil deixá-la, mas falei muito com ela, dei-lhe muitos beijinhos e no fim, quando me virei para sair, destruída e a pensar que nem um milagre ma traria de volta, o braço direito dela, peso literalmente morto, levantou, a mão tocou-me de uma forma desalinhada na face… e caiu. 

Aí tive a certeza que me sentiu e se despediu de mim….mas eu até hoje não me despedi. Até hoje carrego uma dor e uma saudade indescritíveis. E a falta que ela me faz!? 

Estava lá, há exactamente 28 anos atrás. Unidade de Hematologia do Hospital dos Capuchos. 

A avó partiu 24 horas depois, ou seja, amanhã, pelas 12.50h e nada mais foi como dantes. 

Recordo-a hoje e sempre com muito amor, carinho e sobretudo muita saudade.

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