E se eu já não apreciava a quadra pagã, agora associo-a sempre a outra triste memória.
Estávamos em 2020, o Covid já vinha no nosso encalço mas nós ainda não fazíamos ideia do que aí vinha, o meu padrasto tinha feito a primeira sessão de quimio e aquilo não correu bem. Em parte acredito que pela ansiedade dele, era um pouco piegas e tal…por outra, vou ao campo subjectivo do azar.
Era época de Carnaval.
Após essa tal primeira sessão não se sentiu bem, com vómitos e mal estar generalizado, foi ao hospital e acabaram por interná-lo na UCI de Cardiologia, dados os problemas que tinha no coração. Foi a melhor decisão que tomaram pois nessa noite o coração dele decidiu desafiar-se e fez o Pacemaker disparar 8 vezes. Ao que parece foi crítico, ele nunca perdeu a consciência, lembrava-se de tudo, até da azáfama dos médicos que não lhe conseguiam tocar enquanto a máquina desfibrilhava e ele estava literalmente com carga eléctrica.
Resistiu e eu pensei na segunda vez na minha vida que, se sobreviveu àquilo, não morreria. Da primeira vez enganei-me e perdi a minha avó e da segunda acabei por perdê-lo também.
A miúda ainda andava na escola primária, saía às 17.30h e lá fui eu depois disso a “correr” para Setúbal.
Nunca tinha estado numa UCI de Cardiologia e confesso que me pareceu assustador e muito delicado. Muitos fios, muitas máquinas, os doentes ligados a tudo e mais alguma coisa e os “pis” ensurdecedores. Tanto os médicos como os enfermeiros estão em estado de alerta máximo e sente-se muita tensão.
A minha irmã entrou primeiro, depois entrei eu e aí a expressão dele mudou - o sentido de humor estava inalterado mas não esperava ver-me porque tinha a criança e seria mais improvável lá aparecer, mas obviamente que iria e fui. Perguntou pela neta, disse-lhe que estava do lado de fora por não poder entrar na Unidade e aí fez beicinho, disse que queria vê-la, chorou, eu comecei a dizer mal da minha vida, interiormente e a pensar que tinha feito o maior disparate ao dizer que a miúda estava lá fora.
O máximo que consegui foi sair da sala, a cama onde ele estava por sorte estava numa posição que dava para ver o átrio, puxámos a cortina, peguei na criança ao colo e lá acenou ao avô. Mais ele se emocionava…
Estávamos no Carnaval…
Nisto, o médico que estava a controlar os monitores sem olhar para mim disse qualquer coisa como “eu não mando nada aqui mas a neta que vá ver o avô, mas eu não autorizei nada!”
Foi tudo tão rápido e com carga dramática que nem percebi, a minha irmã fez-me sinal para entrar, eu a negar porque é contra as regras…mas o médico lá repetiu…e eu muito baixinho disse à miúda para não se assustar com os fios, que estava tudo controlado, para falar baixinho e que não podia estar lá mais do que 1 minuto e que assim que eu dissesse teríamos de sair. Ao entrar olhei para o médico que me piscou o olho de uma forma muito empática e, o encontro de avô e neta foi magnífico. O avô deixou de ter dores, riu, quase se levantou de tão feliz estar.
Embora ele tenha partido 3 meses depois, foi a última vez que o viu com vida.
Ainda houve mais hospitalizações, mesmo naquele ciclo passou para a enfermaria, mas aí com os 9 anos que ela tinha não dava mesmo para entrar e ficou-me na memória que era Carnaval pois num dos dias em que nos dirigimos para o hospital, era queria ir mascarada e explique-lhe que a situação e o local não eram indicados para esse tipo de paganismo.
E agora quando começo a ver na televisão os ensaios para os desfiles, nos supermercados as fantasias à venda e demais artefactos associados à quadra…vem-me à memória aquilo maldito ano, o facto de haver sempre quem está em folia quando outros sofrem, a finitude, a saudade e a tristeza pela perda.
Era Carnaval, é mais um se aproxima. Ciclos…
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